domingo, 12 de fevereiro de 2012
O Fluminense não precisa de zagueiro, não!
Muitos dizem que
é uma obrigação, mas nego. Acompanho as partidas com o mesmo prazer que bebo as
minhas cervejas quando estou de folga, na calmaria do meu bairro. Às vezes, falta
tempo. É importante se preparar para os duelos, sobretudo para quem, assim como
eu, vive do futebol.
Há de se deixar
registrado que, diferentemente do que muitos pensam, acho a zaga do Fluminense um
exemplo de entrosamento. Majestoso, Leandro Euzébio é um atleta que intimida os
adversários quando estes acreditam que estão livres, leves e soltos. Rosário –
bonito nome – é feio. Mas ainda tem simpático. É uma beleza rara, de fato, exótica
em essência. Precisa
olhar de muito perto para compreender. O mesmo acontece com Digão. O que lhe
falta de tranquilidade, sobra de vontade. Seria pior o contrário, acreditem.
Cartões vermelhos existem e precisam ser utilizados. E este último nome é um
bom motivo para existência de tais advertências.
Vou confessar. Tenho
um preferido. Ele não vem atuando nesta temporada – uma pena. Gum, além do faro
de gol e da cabeça em formato semi oval para a horizontal, lembrando uma bola
de futebol americano deitada, é um guerreiro. Não erra com classe, mas é
honesto. O que me preocupa é o tal de Elivelton. Baixinho, só sabe correr. Tá dodói,
coitado...
Talvez a minha
visão não seja bem digerida pelos fãs brasileiros. Amo futebol, por isso
assisto os campeonatos no Brasil e em todo o mundo. De folga, neste domingo,
resolvi opinar acerca do Fluminense, time que passei a conhecer melhor em 2008.
Abstive-me de falar sobre o Anderson porque, de verdade, não o conheço. Na dúvida,
é melhor deixar como tá...
- Tio, me dá um
autógrafo, por favor – um garoto interrompe o meu devaneio, enquanto tomo meu último
gole de uma loira gelada genuinamente argentina.
Pego um guardanapo
e faço a alegria do pequeno: “um grande
abraço de Juan Roman Riquelme”. Entrego o papel para o menino e peço a
conta ao garçon. Não lembro muito bem onde parou o meu raciocínio sobre o tal
Fluminense e seu sistema defensivo. Mas esse clube não precisa de zagueiro, não!
Abel está feliz e eu, sem dúvidas, também transbordarei de felicidade quando
encontrar cada jogador que citei, independentemente de qual seja. Para quê
arriscar, né? Deixa como tá e até o dia 7 de março! Hasta luego!
Sigam-me no Twitter: @PauloFBS
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Manual do idiota, otário e babaca: passo a passo
No
dia da estreia da Libertadores, uma indefinição me tirava o bom humor. Eu
acompanhava o noticiário observando atentamente o trânsito catastrófico na
manhã de terça-feira em direção ao Centro do Rio; ofegava mais que o normal, na
sala de casa, com os termômetros marcando 35ºC às 9h23; três faturas de cartão
de crédito para pagar, uma da Sky, além de não ter Nescau na dispensa. Comigo,
ou é achocolatado ou é cereal com iogurte no café.
O
cenário espantoso era fichinha perto da ansiedade por uma resposta acerca do
jogo do Fluminense. “Vai passar ou não na Sky?”, ficava martelando como um
mantra na minha cabeça. Em jejum e sem escovar os dentes, após pensar muito,
tive a péssima ideia de tentar ligar para a operadora e dizer que cancelaria a
minha assinatura, caso o jogo não fosse transmitido.
Ligação feita às
10h31
Ah,
ontem eu já havia tentando ligar para a operadora, mas sem sucesso algum. O
número 10611 deu ocupado praticamente o dia inteiro. Na primeira tentativa
desta terça, eis que, para a minha surpresa, sucesso. E, neste caso, sucesso
significa ouvir uma atendente virtual com sotaque paulista e cheia de graça. Juro.
No pior sentido da palavra. Após confirmar o número do CPF, apertei o botão
sinalizando que queria ser transferido para o setor de cancelamento.
14
minutos depois...
-
Pode me confirmar o seu CPF? – disse o atendente.
-
11... – confirmei.
-
Ok. Em que posso ajudá-lo, senhor?
-
Gostaria de efetuar o cancelamento da minha assinatura – disse com firmeza.
-
Algum serviço da Sky lhe desagrada neste momento, senhor?
-
Na verdade, além do preço, o que me desagrada é a ausência do sinal da Fox
Sports na programação. Eu gostaria de assistir ao jogo do Flu, hoje, pela
Libertadores, mas não poderei porque ainda não tem esse canal na Sky –
expliquei.
-
Senhor, coloque no canal FX. Clique no guia de programação até o horário do
jogo e veja se consta que ele será transmitido.
-
Já fiz isto ontem e repeti o processo hoje. Não, não consta – comemorei em
silêncio por estar à frente daquele homem treinado para me convencer de que eu
tenho que permanecer com a Sky.
-
Um momento, por favor, que irei verificar – saiu estrategicamente.
O
vazio tomou conta da ligação. Enquanto outras empresas nos desestabilizam com
músicas surrealistas de corno progressivo, a Sky faz o inverso e adota o
silêncio quando deixa o assinante em espera. Dez minutos depois, o atendente,
mostrando total ignorância sobre os fatos, explicou que, por fazerem parte da
mesma empresa, os canais (FX e/ou Speed) poderiam, sim, transmitir o jogo do
Flu. Antes disto, ele me perguntou, perdido, se eu era flamenguista.
-
Meu amigo, se eu fosse flamenguista, você não sairia do telefone vivo – tentei quebrar
o clima de mim mesmo. O filho da mãe, provavelmente torcedor do Corinthians, riu.
Mas
a coisa não para por aí. Talvez fã dos filmes de Tarantino, o cara resolve puxar
um diálogo paralelo no meio da conversa sobre cancelamento da assinatura. De
repente, ele fala sobre o PFC, dizendo que a CBF, às vezes, por conta de
negociações com o Premiere, não liberava dois clássicos ao mesmo tempo.
-
E o que o PFC tem a ver com a Libertadores, amigo? – questionei irritado e com
hálito de jejum, sem entender o motivo dele falar aquela besteira sem pé nem
cabeça.
-
Nada, senhor. Só queria esclarecer – respondeu.
-
Mas eu não perguntei nada sobre isso – insisti.
-
Paulo, só mais um instante – outra saída estratégica do indivíduo.
Logo
depois, ele reaparece na linha e, ao que tudo indica, continua com um parafuso
a menos.
-
Você tem interesse em estar assistindo jogos da Libertadores, né?
-
Sim. Eu já disse! – apesar da exclamação, acho que só fui enfático no
pensamento.
-
Só para confirmar – disse ele.
Um
silêncio infinito e, provavelmente, desonesto tomou conta da ligação. Por
dentro, eu berrava, querendo socar a fuça de todos que estavam por trás daquele
atendimento, dos executivos da Fox, da Globosat, do que estivesse pela frente. A
ligação caiu.
4ª tentativa (11h20)
Depois
que o “sistema” caiu, obviamente quase quebrei os objetos ao meu redor. Na minha
cabeça, a casa já estava pegando fogo. E eu rindo de ódio. Tentei ligar três
vezes para a Sky, sem sucesso. Na quarta tentativa, a atendente virtual volta
com aquele discurso e o sotaque paulista. Ao mesmo tempo, cerca de 5 minutos
após a primeira ligação ter caído, o meu celular toca.
-
Senhor, aqui é Marta Drotta, da Sky. É com Paulo Fernando que estou falando?
-
Sim – respondi com sangue nos olhos, mas ela não poderia ver mesmo.
-
Então, senhor, houve uma queda de ligação quando estava falando com
atendimento. O atendente não tem como retornar, aí ele me repassou a sua
reclamação. Estou ligando para lhe informar que vai ter o jogo no FX e no
Sportv – ouvi aliviado.
Peraí,
o quê ela disse? Sportv? SPORTV? S-P-O-R-T-V?!!?! PQP! Só pode ser sacanagem.
Esses infelizes não sabem nem sobre os direitos de transmissão do torneio e
falam uma asneira dessas. Daqui a pouco vão querer me convencer que verde não é
mais verde e, sim, cinza.
-
Tem certeza que passará no Sportv? – indago como se não soubesse de nada.
-
Foi a informação que me passaram. E nós temos a informação que vai ser
disponibilizado no Sportv. Inclusive, ontem, eu fui verificar também a mesma
coisa para passar a um cliente. Só espero que não aconteça nenhum problema para
o senhor não cancelar depois – disse rindo.
-
Você me garante que isso vai ser transmitido mesmo? Esta é a única coisa que
pode me segurar na Sky – falei, entregando os pontos do meu desespero.
-
Vai passar sim. Vou até fazer uma proposta para o senhor, já que paga
direitinho. O seu pacote custa R$309,90. Neste mês, nós vamos te dar um
desconto. O senhor ligou para questionar o canal, e vai ganhar um desconto, viu
que maravilha? – parece piada, né? Mas foi exatamente isso o que ela disse e
concluiu com chave de ouro:
-
O senhor vai pagar R$266,10 neste mês. Nós também vamos dar um desconto para o senhor
nas próximas mensalidades. Vai ficar por R$284,90 por seis meses. Mais alguma
dúvida? – perguntou.
Seduzido
pela merreca e, acreditando, sem acreditar, nas palavras daquela mercantilista
de sentimentos, fiz o óbvio:
-
Muito obrigado e bom trabalho – me despedi.
Além
de mostrar claro desconhecimento sobre o tema, a operadora ainda abusou da inteligência
do assinante, chantageando-o implicitamente. Resta aguardar a transmissão da
partida pelo FX ou, pasme, pelo SPORTV. Vida que segue e, agora, com um nariz
de palhaço bem grande no meu rosto, atestado e comprovado. A ligação terminou
às 11h43.
Protocolo de
atendimento:
1710593620
Sigam-me no Twitter: @paulofbs
______________________________________
Atualizando: A Fox Sports confirmou nesta quarta-feira (08/02) que não exibirá mais jogos pelos canais FX e Speed. Tanto a Sky como a Net ainda não liberaram o sinal da emissora. Os torcedores permanecerão reféns.
______________________________________
Atualizando: A Fox Sports confirmou nesta quarta-feira (08/02) que não exibirá mais jogos pelos canais FX e Speed. Tanto a Sky como a Net ainda não liberaram o sinal da emissora. Os torcedores permanecerão reféns.
terça-feira, 10 de janeiro de 2012
Thiago Neves: sentimento de posse
Um
conhecido do primo do vizinho do gerente da terceira padaria mais famosa de
Laranjeiras, que tem um grande laço de amizade com a cúpula da Unimed, teria
vazado a informação de que Celso Barros estaria reunido com o meia Thiago
Neves, na sede da empresa de planos de saúde. Tão logo, “aproveitadores”
passaram a divulgar a suposta notícia nas redes sociais como se esta fosse
verdade. A questão é: e se realmente for real?
Muitos
boêmios e poetas já dissertaram sobre as “mulheres de malandro”, figuras
típicas de um universo real dos becos, submundos e demais ruas, que levantam a
bandeira do “tapinha não dói”, porque gostam de ser maltratadas. No futebol, as
conquistas, geralmente, apagam o passado. Thiago Neves participou do título da
Copa do Brasil e ponto. Ah, fez três na final da Libertadores diante da LDU e
alguns créus no Rubro-Negro...
Não
discuto a qualidade técnica do jogador e respeito quem o cultua. Para ser
sincero, não o quero no Flu, mas também não o desejaria no Fla. Não pode ser “meu”
nem do “outro”. Sentimento de posse, como nas grandes relações viscerais onde
os parceiros vivem intensamente por um tempo e, logo depois, valorizam mais as
feridas do que as glórias em par. Assim que vestiu o manto do mal, pintado de
vermelho e preto, o pouco senso deu lugar à indelicadeza de quem
quer fazer cena para um determinado grupinho: o apoiador minimizou a torcida do
Flu, menosprezou a grandeza do clube, cuspiu na entidade que o transformou no
que ele é. Ingrato.
Se
ele realmente for contratado, não irei torcer contra. Mas também não vou cantar
seu nome, pedir autógrafos, alisar o ego. Nelson Rodrigues dizia: “Nem todas as
mulheres gostam de apanhar. Só as normais”. Porém, as comparações esdruxulas
acabam por aqui. Eu não sou mulher, e isso não se trata de um relacionamento "rodriguiano".
Apenas negócios, não é, Dr. Celso Barros?
Sigam-me no Twitter: @pauloFBS
______________________________________________________________________
______________________________________________________________________
O texto foi escrito na tarde do dia 10 de janeiro, quando a informação sobre a reunião entre Celso Barros e Thiago Neves não havia saído em nenhum meio de comunicação.
sábado, 7 de janeiro de 2012
A próxima bomba nas Laranjeiras é...
Os
civis parecem longe do perigo. Da para aproveitar o momento e fazer testes
nucleares, no intuito de conhecer o poderio do armamento, embora já o possua há
bastante tempo. Todo ano é uma nova oportunidade de testes: alvo encontrado,
apontar, atirar...
Analisando
de maneira fria, em temporadas anteriores, o estrondo foi bem maior, sem a
dosagem indicada na bula do bom soldado. Assim, de explosão em explosão,
estilhaços de Fred, Thiago Neves, Deco, Washington e outros se juntaram aos
demais. O gatilho continua nas mesmas mãos, porém os alvos, ao que parece, se
modificaram. Até o bote perdeu a pirotecnia, dando ao batalhão tricolor um
poder que antes não tinha: o elemento surpresa.
Para
uma fagulha de quem tem às Laranjeiras como porto seguro, é melhor torcer o
nariz pelo caos maquiado na incerteza de Anderson, ao invés de promover a
esperança, premiando-a com medalha de honra em apostas interessantes como
Wagner, Bruno e Jean.
Os
que pedem excessivos cuidados com a retaguarda devem ter esquecido daquilo que
o Barcelona redescobriu e transmitiu ao mundo: a defesa começa pelo ataque. Podem
vir Mirandas, Cirandas, Giocondas para compor a “zona do agrião” tricolor, mas
se o serviço não for feito em grupo, haverá baixas independente dos combatentes
envolvidos na história.
Tendo
a Libertadores como objetivo, a guerra maior não é responsabilidade de quem
ainda está por vir, dos reforços que perambulam no imaginário coletivo da nação
verde, branca e grená. Deve-se vencer o adversário antes do apito inicial,
adotando estratégias inteligentes e abandonando a “covardia vencedora”
muricyana.
No
fogo cruzado, quem for mais ousado pode tirar benefício. É melhor cair se
arriscando do que se afogar na poça de sangue do fogo amigo fantasiado de
displicência. Para evitar “boons” e “kaboons” desnecessários, a próxima bomba nas
Laranjeiras é o bom senso do agora. Um brinde a isto!
Sigam-me no Twitter: @paulofbs
quinta-feira, 17 de novembro de 2011
O Fluminense e a eterna polêmica
Caros tricolores, hoje eu resolvi postar alguns questionamentos importantes do
internauta Bruno Leonardo acerca da nossa relação de amor e ódio com os atletas
do Fluminense. Acho a discussão válida, sobretudo para um autoexame de consciência.
De
fato, quanto mais se vive o futebol, maior é a percepção de que a razão não
entra em campo. A arquibancada não é lugar para a lógica e, muito em função
disto, pouco a pouco deixamos de nos surpreender com pequenos milagres
protagonizados pelo Tricolor das Laranjeiras.
Confiram a reprodução
das questões levantadas por Bruno Leonardo:
O
legal de torcer pelo Fluzão é que o execrado de ontem vira o herói de amanhã e
a polêmica sobre certos jogadores nunca termina... hahaha
- O
Marquinho é o guerreiro incansável do time ou o perna de pau que erra muitos
passes?
- O
Fred é um manguaceiro que desfalca o time em jogos cruciais ou é o artilheiro,
craque e salvador da pátria?
- O
Deco é um bichado de salário altíssimo que rouba dinheiro do Flu e não dura quatro
jogos seguidos, ou é o craque do meio de campo que vive enfiando passes
açucarados para seus companheiros?
- O
Cavalieri é o melhor goleiro do Flu em muitos anos ou é um frangueiro que sai
mal do gol e pula atrasado?
A
polêmica nunca termina.
Sintam-se
livres para debaterem essas questões e levantarem outras indagações nos comentários.
Em
tempo: ao final de cada comentário, não se esqueça de deixar o seu nome.
Sigam-me no Twitter: @PauloFBS
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Só os inteligentes podem ver
Eu
sou burro. Queria aprender a interpretar o que dizem que é óbvio, mas não
consigo. Em contrapartida, o técnico do meu time me ensinou que podemos, sim,
vencer um jogo com uma estratégia insana, suicida, que chama a equipe
adversária. Aconteceu várias vezes no campeonato e nem é preciso forçar muito a
memória para lembrar. Apesar disto, ocorrem triunfos. Muitos até.
O
problema é quando não acontece. O erro fica exposto demais; as luzes brandas
transformam-se em holofotes quando o time cai diante de si mesmo. Foi assim
contra o Bahia, contra o Atlético-MG, contra o América-MG... pontos jogados
fora com uma facilidade surpreendente. Mas o time se supera, apesar dos
próprios tropeços. E, como uma fênix, a esperança volta renovada na rodada
seguinte.
Treinador
sério, Abel tem suas cismas, como qualquer pessoa. Edinho será um eterno volante
para ele. Araújo está à frente de Ciro, para ele. Além disso, o comandante faz
questão de dizer, volta e meia, que alguém foi “brilhante”. E ele erra com uma
convicção absurda. Dá sangue nos nervos! Aí, meu organismo absorve a derrota e
acha que tudo será diferente na outra rodada. Ainda não me convenci, apesar dos
fatos, de que só os inteligentes podem ver que o Abel não é inteligente. Permaneço
burro - e em terceiro lugar na competição. Alguém pode me ajudar?
Sigam-me no Twitter: @paulofbs
sábado, 22 de outubro de 2011
Porrada: armado é o concreto; a imprensa e o torcedor, talvez
“A
ideia de que as notícias de jornal “retratam a realidade” não faz sentido. Não que
os jornais mintam, distorçam, manipulem. Não é isso. Admitamos que os grandes veículos
da imprensa se esforcem na direção da objetividade e da verdade factual. Admitamos,
mais ainda, que eles sejam bem sucedidos nesse esforço. Mesmo assim, a ideia de
que eles “retratem a realidade” não faz sentido. Faria mais sentido dizer que
eles consolidam a realidade, ou aquilo que chamamos, muito precariamente, de
realidade”; (BUCCI, Eugênio).
Eles
estavam sobre mim. Conheço meticulosamente o peso de cada um daqueles corpos,
quase todos os dias presentes no cenário das Laranjeiras. Embora a minha
estrutura seja baseada no concreto, era o coração e a percepção de alguns que
parecia pedra, tornando ainda mais abstrato – e ressonante - algo que, com um mínimo
de bom senso, poderia se tornar irrelevante. Até eu me estranho quando menciono
a natureza dos homens desta forma. Creio que, com o tempo, eu fui me
humanizando e as pessoas se “coisificando”.
Não
me apresentei. Me chamo Arquibancada do estádio Manoel Schwartz. Nas últimas
muitas décadas, preferi adotar o silêncio. Porém, esta semana, em virtude do
medo de algumas pessoas em passarem suas perspectivas sobre o que aconteceu na
quinta e na sexta-feira, me vi na necessidade de dividir um pouco daquilo que
testemunhei. Os anos praticamente imóveis me deram a oportunidade de ouvir
demais, observar muito, e concluir, com uma base de aço, pensamentos que não
sabia que um concreto armado poderia ter.
Não
espero que tomem o meu relato como verdade. Ele é, sim, um fragmento de tudo
que fora divulgado até então. Não pediram o meu depoimento, mas acho que posso
contribuir nesse meio cheio de “verdades” e “teorias da conspiração”. As fontes
não quiseram falar ou serem enunciadas, por isso eu falo e digo o meu nome.
No
dia 20 de outubro, um grupo de tricolores folheava as páginas do jornal Lance,
irritados, obviamente, com a postura do veiculo em divulgar o treino secreto
comandado por Abel Braga, no dia anterior, na Escola de Educação Física do
Exército. Bom, não digo se é bom ou ruim. Lá eles não têm arquibancada, mas
vamos deixar esse meu lado ciumento para depois. Voltemos ao que interessa. O
fato, dentro dessa versão que contarei, é que o jornalista, envolvido na
polêmica, observou o que acontecia, passou próximo e chamou o torcedor/conselheiro
de “maluco”, gesticulando e encarando-o com uma cara que os humanos chamam de “feia”.
Para mim, são todos iguais, sinceramente: sete bilhões de japoneses.
Então,
a partir da manifestação do jornalista, teve início a confusão que abarrotou os
principais jornais, ofuscando, inclusive a derrota do Flamengo por 4 a 0,
dentro de casa, com um gol mal anulado do adversário, um pênalti não marcado
para o adversário e três mil pagantes. A questão é o que seria mais ou menos
importante: a goleada sobre o time que tem uma arquibancada recalcada – e fofoqueira
(todo vizinho é assim, né?) - ali na Gávea ou a espetacular descoberta que o
ataque deve ser formado por Sobis e Martinuccio? Optaram pelo segundo fato em
determinadas mídias. Questão de opinião, coisa natural entre a espécie humana.
No
contexto da polêmica, o que é óbvio é dizer que o repórter, enquanto
jornalista, não deveria bater boca com o torcedor. A partir do momento em que
isso acontece, ele volta a materializar a capa humana, se igualando. Deu no que
deu. Tem horas que é melhor fazer ouvido de mercador e sair ileso de algo que
não teria efeito se não fosse reações não calculadas (?). Quando a noticia de
um dispositivo de imprensa vira o fato jornalístico a ser debatido, devido aos
olhos atentos daqueles que absorvem os acontecimentos pelos mesmos veículos, a
mídia vira refém de si mesma e, mantendo a tradição, faz jogo duro para não
mostrar que o golpe atingiu em cheio. Tentam legitimar um erro mostrando a
produção dos mesmos erros com outros personagens. Não se espantem. Aprendi essa
coisa com uma estudante de comunicação que levava umas apostilas velhas para
cima de mim, em épocas de prova na sua faculdade. Ela era fanática pelo clube e
estudava com um bumbum na minha cabeça. Era fofa.
Outra
coisa que apregoaram foi que os atletas teriam aplaudido a atitude do
conselheiro em xingar a imprensa. Na verdade, até um pônei maldito com uma
mente praticamente vazia e mecânica por conta da repetição de coreografias
idiotas saberia que aquilo era um aplauso ao “show” dado. Um deboche, como vocês
dizem. E não foram todos. Aliás, mesmo que aplaudissem com o sentido de apoiar,
me digam, qual é o problema? Na visão do torcedor, aquele conselheiro foi um
super-herói por um dia. Na visão da imprensa, aquele conselheiro foi um
imbecil. São versões, fatos, verdades de uma mesma cena. Não há como ignorar. Quem
se alimenta dos triunfos do clube, ficou P da vida com a divulgação da matéria
sobre o treino fechado. Quem se alimenta do clube, independente do resultado em
campo, obviamente não tinha motivo para reclamar.
Por
fim, é importante deixar claro que o Fluminense não está em briga com a
imprensa. Essa briga existe, sim, por parte dos tricolores, da torcida, que
enxerga perseguição em determinadas situações. Aqui, sob eles, eu vejo isso. Sempre
reclamam das mídias. Pronto. Já falei demais. Agora, se possível, tentarei
ficar mais uns 90 anos em silêncio. Ah, te amo, vereador Carlos Caiado!
Obrigado por ser um dos responsáveis pelo meu tombamento e consequente quase
imortalidade. Fui!
Twitter: @pauloFBS
Assinar Comentários [Atom]





